FeeD

terça-feira, 22 de abril de 2008

Outra dimensão

No meio da multidão o "toc toc" de sempre não deixa de desviar a atenção de alguns. Passo apressado e um olhar determinado. Ofegante e vermelha como só ela poderia imaginar. De repente, pára. Enfia a mão no decote ainda em público, sem se incomodar, de fato, com os outros. Fecha os olhos de modo tão macio quanto as mãos. Sente o prazer de um implacável raio de liberdade invadindo o seu peito, os cabelos no rosto, a brisa leve da manhã corrida da Paulista. Lambe os lábios como quem desperta para o novo. Desce do salto. Ouve o violinista e engasga com uma tragada de fumaça de um cigarro alheio, mas se delicia com tudo aquilo. A vida ali era outra. Intimamente no meio de todos, tendo todos como desconhecidos, tendo todos como amigos, apenas todos.
Pisou em alguns cacos de vidro e se atrasou para a reunião. Sentiu a chuva. Tremeu de emoção. No meio de tantos vai-e-vens, no meio de tanto nervosismo, era apenas mais uma criança a nascer. A sentir.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A realidade: uma ilusão.

Ele abriu os olhos. Sentia o corpo todo doer e não pensava em outra coisa sequer no rosto dela. Curioso, parecia estar dormindo! Curioso, não tinha sido jogada. Pelo menos não vira nada.
À sua volta a multidão se amontoava. Cada qual poupando seus compromissos de suas ilustres presenças sem maiores explicações.
Uma fraca luz se reportava à moça deitada transversalmente sobre seu corpo, ainda com a face oculta para todos.
Ao fundo, ele ouvia uma sirene, ainda fraca. Foi quando a garoa começou a cair.
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A dor já tomava conta do corpo dela. Não se mexia, pois sabia que as conseqüências de qualquer movimento poderiam ser desastrosas. Apenas abriu os olhos.
Ao fundo ouvia muitos comentários de curiosos transeuntes, algumas pessoas no celular. "Não vai dar pra chegar, o trânsito tá horrível" mentia uma no telefone aproveitando para esticar os olhos sobre o casal estendido no chão. "Noooossa! E o que essa mulher pretendia?" murmuravam outros.
Com muito esforço, ela ergue um pouco a cabeça e logo vê, um padre se aproxima. Ao fundo luzes e uma sirene estridente, cada vez mais nítidos, invadiam seus pensamentos. Seu corpo doía.
O homem religioso, ajoelhava-se diante dela e começava a balbuciar qualquer coisa em latim.

Ela não resistiu.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Só chegando (irreal ou surreal?)

Ela chegou arfando, como quem vem de uma longa perseguição. Abre a porta do quarto e simplesmente se joga de cara no chão, sem pena do nariz quebrado.
Dorme.
No dia sequinte, as coisas pareciam um tanto surreais. Levantou-se e hesitou um pouco antes de sucumbir à PUTA VONTADE DE ESCREVER.
Trêmula e cambaleante, ergueu-se nas finas pernas e rastejou até o piano. Sentou. E lá passou a tarde inteira, nas teclas de marfim, digitando.
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Ele toma seu último gole de tequila, arrota sonoramente e olha ao seu redor. Todos parecem minuciosamente alheios, cada um no seu próprio mundo como se fossem um bando de autistas. De fato, eram autistas. Tinham isso por opção.
Ele escrevia na mesa com um canivete sem fio palavras que não faziam o menor sentido. Pediu a conta, pagou, saiu. Olhou pra cima e desfrutou das cores do céu no anoitecer. Ele a viu se jogar do oitavo andar. Tudo apagou.