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segunda-feira, 14 de março de 2016

Uma música

Respirar fundo.

De repente, o mundo se cria. Numa gota d'água, percebo todos os meus sonhos, todos os meus anseios.
Segredos. Todos mantidos na mente, na frente desse sentimento de liberdade. E então, uma dor...
Sinto a dor. A pele rasga, a emoção engasga, os ossos se estendem. Uma voz confusa murmura na minha mente. Calma e tranquilamente.
O vento cortante rompe o tempo. Tudo parece subir e sumir. E do escuro da minha volta, sinto a luz da minha alma me aquecer: minhas asas se abrem, a postos.
Eu, de repente, posso, enfim, voar.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Amor passado.

Foco! E essa trêmula desesperança, essa ânsia de ver tudo terminado... Lamentando medo do fracasso. Inocentemente, temendo o incerto que me espera atrás das curvas do destino.
Pouso as mãos sobre o lancinante desejo à espera dos olhares cruzados. E espero: Espero a boca seca, o calafrio que corre por toda a espinha, as náuseas fortes... Espero sua boca, aparentemente, também ansiosa, encerrar seu discurso sobre o dia, sobre o vinho. E foi quando aconteceu. Primeiro, seus dedos, que passeavam levemente sobre o bocal da taça. Um olhar fixo e decidido ergue-se rumo ao meu embaraçamento. Tomada de um surto, tento, em vão, encobrir essa enxurrada de sentimentos soltando as palavras como animais selvagens em debandada, como uma desculpa descontrolada... Pois não se passaram nem trinta segundos até que você, impacientemente, enrolasse seus dedos, atravessasse a mesa de ponta a ponta e envolvesse-me em um beijo. Profundo.
Tomada pelo pânico, envolvi sua garganta em meus dedos. Apertava-a como se lutasse pela minha vida. Retribuía o beijo. Sua mão, já próxima da minha nuca, me puxa com mais selvageria. Eu gosto.
Foi aos poucos que eu o senti afrouxar o toque. E aos poucos, esmaeceu o sentimento... o calor. E ao afastá-lo de mim, por mais que eu tentasse, não conseguia deixar de encarar a falsa nobreza que escondia nos seus olhos... O tardio pedido de socorro que jamais chegou.
Descanse em paz...

Em minha mente.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Apenas um Beijo

Peço a licença de um dos meus maiores alvos de críticas passadas para falar sobre ele. Analisando o meu incomum (e falho) senso de justiça, venho aqui pedir um pequeno espaço no seu coração. Nos meus textos… Creio que ele se encontre em minhas palavras… E se não se encontrar, creio, então, que esteja morto.
Só situando a falha: foi minha. Inúmeras vezes. Sei assumir meus erros, mas nunca corrigi-los a tempo: outra falha. Descia, aquele dia, do meu caminho habitual. Da rotina lerda e insensata que todos os dias me matava. Aos poucos. Eu descia… Pela primeira vez em minha vida, apiedei-me de alguém me pedindo que reconsiderasse. Não era bem piedade. Era amor. E daqueles que não esquecemos o resto de nossas vidas, pois os que esquecemos nem eram amores de verdade. E, melhor que todas as figuras de linguagem rotineiras e melhor que todos os hinos e esforços em descrever, ali ele estava. A ruína da minha frieza, a amargura da minha amargura e o calor da minha carência. Seus olhos? Nunca saberia dizer se tentando ler a resposta dos meus ou se pedindo que se aproximassem mais… Mas brilhavam na noite doces e serenos. Doces como eu gostaria que fossem quando direcionados a mim por toda a eternidade. Penso, mesmo, e reforço. Era amor.
As palavras que se seguiram, no entanto, pareciam sem gosto e frágeis. Feitas de vidro, eu diria. E lentas.. e bem pontuadas. Mas não ousaria precisar quanto tempo passou até que elas cedessem seu espaço às palavras mais doces já ditas no absoluto silêncio. Tomada pelo espanto, sentia cada pedacinho de mim se levantar, mas não em protesto. Era consentindo que meus braços os envolviam. Era aceitando que minha boca se deixava encostar na sua. Era sentindo que eu sabia, de repente, que não estávamos mais no chão. Que o mundo girava, mesmo que apenas por um segundo à nossa volta… E que o tempo parou. O espanto não foi só meu. Nem o desejo de sentir aquilo de novo. Acho que foi por isso que deixamos meus erros de lado.

Acho que isso foi algo que não deixei mais de lado… Nunca mais senti nada assim por alguém. Talvez nem ele.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Desejo...

Quero me afogar nos teus braços, embebedar-me no cheiro dos teus lábios. Quero esquecer.
Desço minha mão em teus seios. Receio... Anseio por teus gemidos mansos. Não canso dessas unhas cravadas na minha pele, da tua voz destoante ecoando pelos cantos.
Teu canto... Meus lábios tremem.
Vendo seu corpo tremendo levemente, meus dedos passeiam por entre tuas coxas, encarnam teu prazer... Desesperadamente. Em sua mente, imaginei, tudo ainda rodava. Cedia, pois, aos poucos. Avançava devagar como a mais delicada, elaborada abertura de ópera. Como um vinho que desperta-me os sentidos.
Esqueço do mundo ao fundo, prendo-me a sonhos alheios, devaneios. E lamber tua pele, sentir o gosto amargo do perfume e o êxtase, o suor, desejo.
Mordo-te os lábios e vejo o fim das tuas forças. O calor abafado, insuportável, parece matar-me aos poucos, extrair minhas forças também. O calor abafado do teu corpo nos meus braços.
O medo... A ousadia e meto minha boca no seu corpo a implorar por um pouco mais de ti, sem me importar. Seus gritos acordariam a todos, que me incomoda nisso? A fúria com que te atacava e seu empenho em manter-me eram mais.
Não pararia por nada.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Get The Show On!

Deitada e lamentando os últimos minutos que teria consciente naquela noite, pensava em Renato. Aquele homem soube, realmente, como invadir cada centímetro do seu íntimo, explorar sua devassidão e sorver até a última gota da sua energia. E, não fosse por tê-lo intimado a dizer, ela não saberia nem mesmo seu nome... se é que era esse. Não importa.
Dominada pelos seus desejos pérfidos, Flávia deixou que tomassem rumo aqueles pensamentos profanos, esperando que se calassem na escuridão e no silêncio que a rodeavam. Não calariam.
Demorados cinco minutos ou menos, o átrio daquela ânsia ultrapassava o limite dos seus sentidos. Dedos e pernas e mãos e suspiros atormentavam-lhe o juízo de uma forma tão íntima e tão lírica que não deixavam dormir os pensamentos tão desafortunadamente impuros... Sentia vergonha de si mesma. Mas gostava disso. Não pararia.
Dentro de si e nela mesma, um misto de glória e desespero, vergonha e uma certa paixão pelo que considerava, então, errado faziam-na rangir os dentes e os pés da cama. Renato, agora, não deixava de habitar sequer um detalhe dos seus pensamentos. E do físico... Da alma, dos livros, estantes e todas as músicas que Flávia poderia conhecer. Era angustiante e desejável que continuasse nesse rumo. E não se perderia.
Dançando em sua mente, tudo era tão real que ela podia ouvir os gemidos, sentir a respiração dele... e a fricção de seus dedos levemente ásperos. O calor que crescia em seu corpo tomava-lhe, então, como se cada pedaço do seu ser fosse uma nota de um bom vinho... ou um Stradivarius à espera de seu melhor concerto. Não sente mais.
Degustando o prazer do momento alto daquela orquestra, aquietou-se, então, embebida em torpor. E o corpo dormente e o sorriso ardente reservaram-se à platéia de livros e álbuns musicais mais próximos do seu quarto.

domingo, 25 de julho de 2010

Rancor

Quanto rancor se guarda em uma alma antes que ela exploda, suma e lhe faça esquecer do autocontrole?

Quantas frustrações, destemperos, decepções, feridas, angústias e raivas conseguem ser contidas antes que a razão resolva fazer greve, a consciência tirar férias, o bom senso lavar as mãos e os apegos sociais sejam jogados num canto escuro do superego que, por sua vez, resolve não mais tentar impedir o inevitável?

Quando chega o momento em que tudo entra em colapso, seu sistema torna-se catártico e você é comandado por nada menos que instintos. Neste instante, tua raiva passa a ser contra tudo e todos, e eles viram seus inimigos, rivais ou os grandes responsáveis pela atual situação.

Odeia tudo, todos, principalmente os que querem te ajudar. Porque não quer ser ajudado, teu Eu desistiu e você quer segui-lo com a fidelidade de um apóstolo e a fibra de um maratonista.

Isso tudo exceto por uma pessoa, que quando vê, ouve a voz ou simplesmente lhe chega o nome aos ouvidos, torna tudo melhor, completo, com algum propósito. Mesmo lhe vindo à cabeça que essa pessoa é a responsável por pela tua atual condição, que poderia ter feito diferente e não se frustrado tanto, ferido tanto, mudado tanto. Mas que independente disso, mantém-se convicto de que faria tudo novamente, e novamente e novamente. Sempre com a intenção de mudar algumas coisas, para que no fim o que não deu certo funcionasse e o que fossem frustrações se convertessem em sorrisos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Espelho

É a raiva de minha própria imagem o que me consome nesse momento. A dor de lembrar o que fui e compreender o que agora sou, de imaginar o quanto mudei, o quanto morri e entender o pedaço de mim que falta.

Tudo isso porque falhei a falha dos fracos, dos enfeitiçados, dos emudecidos, dos enganados, dos substituídos, dos abandonados.

Falha que não me tirou uma certeza, já que foi responsabilidade minha e estava prevista que cedo ou tarde aconteceria. Certeza essa que agarro com unhas e dentes e na qual vou persistir até o fim da minha vida.

O que me dá a convicção de que cometeria esse erro em todas as vezes que fossem possíveis. Porque ele me fez diferente, mas também me fez melhor.

No entanto, queria novamente receber a dádiva de não me importar tanto, como sempre foi parte de mim. Pois sem ela, tudo relacionado me atinge, afeta e machuca. Como também me obriga a abdicar de coisas que nunca abriria mão, já que não faria parte delas.

Queria ter paz para preencher por algum tempo – e me sentir melhor – no vazio que pertence a você.

domingo, 11 de julho de 2010

Recomeçar...

Desisti!

...E aquele não era o primeiro ato! Mas desistir tem feito mais parte do meu dia-a-dia que respirar, creio. Isso, de fato, tem ficado mais repetitivo, exaustivo e, consequentemente, desanimador. Rabisquei qualquer coisa na mesa ressecada de madeira e olhei no horizonte onde o sol nascia. Era, de fato, hora de parar de perturbar. Minha mão trêmula encontrou a gaveta e a abriu como quem tem pressa. Os pensamentos, os momentos da minha vida passavam a milhão pela mente.

A violência dos meus desejos acabou por derrubar a gaveta no chão, não sem antes salvar no ar o resto das minhas economias.

Uma folha amassada e um bocado rasgada sobre a mesa dizia a palavra que mais tem feito parte da minha vida. Apenas ela.
Um sorriso na face bolava novos planos... E meus pés, "filhos" de pernas bambas, pareciam me levar certa e devidamente rumo ao incerto. Ao além. Daqueles dias eu não precisaria mais. E um novo eu estava por vir. Apenas eu. E mais ninguém.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Carta de despedida

Um litro e meio de café forte, amargo, esquecidos no bule por puro descaso causado pelos fatos. A garrafa térmica ficou sobre a mesa, ansiosa, desamparada, classificou-se inútil quando tudo o que podia fazer era observar o líquido que tanto esperava ser despejado esfriar estático, vítima das intempéries comuns ao mundo, que o fazem ser fascinante da forma que é.

Novamente por descaso, o café, que já não bastasse estar sendo requentado, foi esquecido no bule até gerar pressão suficiente para fugir de seu recipiente, gerar caos, sujeira, confusão, gritaria.

Foi então, outra vez esquecido, cansado e frustrado. Dessa vez, diretamente de encontro à garrafa, para que não perdesse o pouco calor que ainda restava.

Mas agora, além de requentado e queimado, o café estava frio. E ao menos ele saborearia a réplica simbolizada pela repulsa de quem o tomasse, já que para se sentir melhor, faria aqueles ao seu redor pagarem.

Mas um, ainda assim tomava – porque apesar disso, era grato pelo café mantê-lo acordado – e se sentiria mal por sorver estes últimos goles e não achar que deva ter esperança por próximos.

Em memória

- Engraçado. É engraçado como só agora que não vou mais poder te ver, lembro do quanto sinto tua falta. Passo a remoer tudo o que passamos, as maluquices, os limites que tentamos alcançar, mesmo quando distantes, fazíamos alguma merda pensando no que o outro seria capaz se na mesma situação. – ele disse a si mesmo enquanto via fotos antigas, algumas amassadas, que haviam sido esquecidas em um canto qualquer. Mal lembrava-se da amiga com a qual passara quatro anos intensos, dos quais quase não lembrava, graças à abençoada amnésia alcoólica. E, que anos depois, não repetindo nada próximo daquilo mantinha-se orgulhoso de tudo o que não fazia ideia do que havia feito.

- Desculpa não avisar, não queria você preocupado. – imaginou a amiga dizer – E, acima de tudo, não queria te dar a chance de dizer "eu avisei".

- Foda-se. Estar ao seu lado nesse momento era mais importante do que qualquer disputa de egos que nós tivéssemos. Só diria "eu avisei" quando se recuperasse.

- Então vai guardar isso entalado na garganta a vida inteira?

- Isso não é hora, Lu. Eu sequer vou ser capaz de me despedir, queria ao menos poder fazer isso. – lágrimas teimavam em encontrar seu caminho.

- Pensa comigo, cabeça: Ia basicamente largar o trabalho pelo qual só não deu seu fígado porque ele ainda não tava inteiro o suficiente e, também, ia me ver aos pedaços. A bunda da qual tanto gostava não ia ter nem sinal do que já chegou a ser. Convenhamos, seria broxante.

- Não interessa, é minha amiga, eu sempre insisti pra que largasse essa porra de cigarro, mas nunca parou. Eu tinha o direito de saber que isso tava te matando. – uma vontade súbita de abraçar o tomou, o desejo de adeus tornou-se físico.

- E eu tinha o direito de não te dizer nada e deixar com que seguisse sua vida. – ele sentiu a vontade dela, por mais esquizofrênica que fosse, de retribuir.

- O problema é que isso sequer pode ser considerado uma despedida. Não te vejo e não nos falamos há mais de um ano, certeza que por causa da doença.

- E não fazendo mais parte da minha vida, deveria não fazer parte de minha morte.

- Não é assim que funciona com os bons amigos.

- Não é assim que funciona nossa amizade. A viadice fica por minha conta, mesmo quando só você restou. Agora, antes que eu vá de vez, não tem nada mesmo a dizer?

- Obrigado.