FeeD

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Get The Show On!

Deitada e lamentando os últimos minutos que teria consciente naquela noite, pensava em Renato. Aquele homem soube, realmente, como invadir cada centímetro do seu íntimo, explorar sua devassidão e sorver até a última gota da sua energia. E, não fosse por tê-lo intimado a dizer, ela não saberia nem mesmo seu nome... se é que era esse. Não importa.
Dominada pelos seus desejos pérfidos, Flávia deixou que tomassem rumo aqueles pensamentos profanos, esperando que se calassem na escuridão e no silêncio que a rodeavam. Não calariam.
Demorados cinco minutos ou menos, o átrio daquela ânsia ultrapassava o limite dos seus sentidos. Dedos e pernas e mãos e suspiros atormentavam-lhe o juízo de uma forma tão íntima e tão lírica que não deixavam dormir os pensamentos tão desafortunadamente impuros... Sentia vergonha de si mesma. Mas gostava disso. Não pararia.
Dentro de si e nela mesma, um misto de glória e desespero, vergonha e uma certa paixão pelo que considerava, então, errado faziam-na rangir os dentes e os pés da cama. Renato, agora, não deixava de habitar sequer um detalhe dos seus pensamentos. E do físico... Da alma, dos livros, estantes e todas as músicas que Flávia poderia conhecer. Era angustiante e desejável que continuasse nesse rumo. E não se perderia.
Dançando em sua mente, tudo era tão real que ela podia ouvir os gemidos, sentir a respiração dele... e a fricção de seus dedos levemente ásperos. O calor que crescia em seu corpo tomava-lhe, então, como se cada pedaço do seu ser fosse uma nota de um bom vinho... ou um Stradivarius à espera de seu melhor concerto. Não sente mais.
Degustando o prazer do momento alto daquela orquestra, aquietou-se, então, embebida em torpor. E o corpo dormente e o sorriso ardente reservaram-se à platéia de livros e álbuns musicais mais próximos do seu quarto.

domingo, 25 de julho de 2010

Rancor

Quanto rancor se guarda em uma alma antes que ela exploda, suma e lhe faça esquecer do autocontrole?

Quantas frustrações, destemperos, decepções, feridas, angústias e raivas conseguem ser contidas antes que a razão resolva fazer greve, a consciência tirar férias, o bom senso lavar as mãos e os apegos sociais sejam jogados num canto escuro do superego que, por sua vez, resolve não mais tentar impedir o inevitável?

Quando chega o momento em que tudo entra em colapso, seu sistema torna-se catártico e você é comandado por nada menos que instintos. Neste instante, tua raiva passa a ser contra tudo e todos, e eles viram seus inimigos, rivais ou os grandes responsáveis pela atual situação.

Odeia tudo, todos, principalmente os que querem te ajudar. Porque não quer ser ajudado, teu Eu desistiu e você quer segui-lo com a fidelidade de um apóstolo e a fibra de um maratonista.

Isso tudo exceto por uma pessoa, que quando vê, ouve a voz ou simplesmente lhe chega o nome aos ouvidos, torna tudo melhor, completo, com algum propósito. Mesmo lhe vindo à cabeça que essa pessoa é a responsável por pela tua atual condição, que poderia ter feito diferente e não se frustrado tanto, ferido tanto, mudado tanto. Mas que independente disso, mantém-se convicto de que faria tudo novamente, e novamente e novamente. Sempre com a intenção de mudar algumas coisas, para que no fim o que não deu certo funcionasse e o que fossem frustrações se convertessem em sorrisos.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Espelho

É a raiva de minha própria imagem o que me consome nesse momento. A dor de lembrar o que fui e compreender o que agora sou, de imaginar o quanto mudei, o quanto morri e entender o pedaço de mim que falta.

Tudo isso porque falhei a falha dos fracos, dos enfeitiçados, dos emudecidos, dos enganados, dos substituídos, dos abandonados.

Falha que não me tirou uma certeza, já que foi responsabilidade minha e estava prevista que cedo ou tarde aconteceria. Certeza essa que agarro com unhas e dentes e na qual vou persistir até o fim da minha vida.

O que me dá a convicção de que cometeria esse erro em todas as vezes que fossem possíveis. Porque ele me fez diferente, mas também me fez melhor.

No entanto, queria novamente receber a dádiva de não me importar tanto, como sempre foi parte de mim. Pois sem ela, tudo relacionado me atinge, afeta e machuca. Como também me obriga a abdicar de coisas que nunca abriria mão, já que não faria parte delas.

Queria ter paz para preencher por algum tempo – e me sentir melhor – no vazio que pertence a você.

domingo, 11 de julho de 2010

Recomeçar...

Desisti!

...E aquele não era o primeiro ato! Mas desistir tem feito mais parte do meu dia-a-dia que respirar, creio. Isso, de fato, tem ficado mais repetitivo, exaustivo e, consequentemente, desanimador. Rabisquei qualquer coisa na mesa ressecada de madeira e olhei no horizonte onde o sol nascia. Era, de fato, hora de parar de perturbar. Minha mão trêmula encontrou a gaveta e a abriu como quem tem pressa. Os pensamentos, os momentos da minha vida passavam a milhão pela mente.

A violência dos meus desejos acabou por derrubar a gaveta no chão, não sem antes salvar no ar o resto das minhas economias.

Uma folha amassada e um bocado rasgada sobre a mesa dizia a palavra que mais tem feito parte da minha vida. Apenas ela.
Um sorriso na face bolava novos planos... E meus pés, "filhos" de pernas bambas, pareciam me levar certa e devidamente rumo ao incerto. Ao além. Daqueles dias eu não precisaria mais. E um novo eu estava por vir. Apenas eu. E mais ninguém.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Carta de despedida

Um litro e meio de café forte, amargo, esquecidos no bule por puro descaso causado pelos fatos. A garrafa térmica ficou sobre a mesa, ansiosa, desamparada, classificou-se inútil quando tudo o que podia fazer era observar o líquido que tanto esperava ser despejado esfriar estático, vítima das intempéries comuns ao mundo, que o fazem ser fascinante da forma que é.

Novamente por descaso, o café, que já não bastasse estar sendo requentado, foi esquecido no bule até gerar pressão suficiente para fugir de seu recipiente, gerar caos, sujeira, confusão, gritaria.

Foi então, outra vez esquecido, cansado e frustrado. Dessa vez, diretamente de encontro à garrafa, para que não perdesse o pouco calor que ainda restava.

Mas agora, além de requentado e queimado, o café estava frio. E ao menos ele saborearia a réplica simbolizada pela repulsa de quem o tomasse, já que para se sentir melhor, faria aqueles ao seu redor pagarem.

Mas um, ainda assim tomava – porque apesar disso, era grato pelo café mantê-lo acordado – e se sentiria mal por sorver estes últimos goles e não achar que deva ter esperança por próximos.

Em memória

- Engraçado. É engraçado como só agora que não vou mais poder te ver, lembro do quanto sinto tua falta. Passo a remoer tudo o que passamos, as maluquices, os limites que tentamos alcançar, mesmo quando distantes, fazíamos alguma merda pensando no que o outro seria capaz se na mesma situação. – ele disse a si mesmo enquanto via fotos antigas, algumas amassadas, que haviam sido esquecidas em um canto qualquer. Mal lembrava-se da amiga com a qual passara quatro anos intensos, dos quais quase não lembrava, graças à abençoada amnésia alcoólica. E, que anos depois, não repetindo nada próximo daquilo mantinha-se orgulhoso de tudo o que não fazia ideia do que havia feito.

- Desculpa não avisar, não queria você preocupado. – imaginou a amiga dizer – E, acima de tudo, não queria te dar a chance de dizer "eu avisei".

- Foda-se. Estar ao seu lado nesse momento era mais importante do que qualquer disputa de egos que nós tivéssemos. Só diria "eu avisei" quando se recuperasse.

- Então vai guardar isso entalado na garganta a vida inteira?

- Isso não é hora, Lu. Eu sequer vou ser capaz de me despedir, queria ao menos poder fazer isso. – lágrimas teimavam em encontrar seu caminho.

- Pensa comigo, cabeça: Ia basicamente largar o trabalho pelo qual só não deu seu fígado porque ele ainda não tava inteiro o suficiente e, também, ia me ver aos pedaços. A bunda da qual tanto gostava não ia ter nem sinal do que já chegou a ser. Convenhamos, seria broxante.

- Não interessa, é minha amiga, eu sempre insisti pra que largasse essa porra de cigarro, mas nunca parou. Eu tinha o direito de saber que isso tava te matando. – uma vontade súbita de abraçar o tomou, o desejo de adeus tornou-se físico.

- E eu tinha o direito de não te dizer nada e deixar com que seguisse sua vida. – ele sentiu a vontade dela, por mais esquizofrênica que fosse, de retribuir.

- O problema é que isso sequer pode ser considerado uma despedida. Não te vejo e não nos falamos há mais de um ano, certeza que por causa da doença.

- E não fazendo mais parte da minha vida, deveria não fazer parte de minha morte.

- Não é assim que funciona com os bons amigos.

- Não é assim que funciona nossa amizade. A viadice fica por minha conta, mesmo quando só você restou. Agora, antes que eu vá de vez, não tem nada mesmo a dizer?

- Obrigado.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Lhe guardo o que dizer

Saí de encontro à sarjeta, hoje é a única a qual pertenço, nela guardo memórias, e quando as quero, me ofereço.

Procuro sufocar a angústia, afogar o que mereço, lembrar do que foi bom, e pensar no que esqueço. Ver o futuro que havia imaginado, quando apenas pertencia à sarjeta, e seu cheiro era adocicado. Então me lembro da brisa branda, sem culpas, ou promessas. De quando não tinha nenhum peso nas costas, de quão fácil tudo era.

Logo divago sobre como quero que tudo isso volte, mas então a sarjeta me puxa, e recorda minha morte.

Então bêbado vomito nela tudo o que guardei, ela escuta calmamente, entre pausas e suporte, lembra que nada pode mudar o que fui ou o que deixei. No fim, é a única voz que realmente ouço – minha própria, na sarjeta – apenas dela posso aceitar ofensas, já que só a mim, ouço.

Ela disse que posso voltar a ser eu, ainda que em parte seu. Mas nunca devo me esquecer, que o que eu era me tornou assim, melhor inclusive nos defeitos recorrentes.

A sarjeta explicou que esse novo eu, só somaria ao antigo. E que seria ainda melhor com todos, por mais que deseje estar contigo.

sábado, 29 de maio de 2010

Reminiscência

- Que fique clara uma coisa nessa conversa: sou um fracasso, não precisa exaltar, ou mesmo me lembrar disso. Minha consciência o faz por conta própria, com um êxito digno de memória, se não o fosse de pena. – foram as primeiras palavras de Marcel, ao encontrar-se com Álvaro, amigo de infância, pelo qual se habituou a tratar como Gambelli, seu sobrenome. Essa foi uma daquelas chamadas emergenciais que ambos faziam em momentos que só o outro seria capaz de ajudá-lo.

- Há quanto tempo fazemos isso? – ignorou o discurso introdutório, sabendo que era isso o que seu amigo esperava.

- Sei lá, desde os doze? – Marcel tentava puxar a informação da memória, se distraiu com uma mulher de vestido que passava pela rua, até pescar a resposta. – Sim, desde quando foi chutado pela sua professora de Educação Física e começamos a nos reunir no jardim do meu prédio.

Eles não mais se encontravam lá, Marcel havia se mudado aos vinte e três para morar sozinho, em uma kitinete no centro. Agora usavam o bar que Álvaro herdara do pai. Ele até fechava-o mais cedo para que pudessem ficar a vontade.

- Agora pode dizer o que me obrigou a fechar o bar às oito da noite em uma sexta-feira e me fez ouvir você choramingando sem nem dar um oi ou dizer que a irmã continua gostosa? – Álvaro disse entre risadas enquanto ia para trás do balcão e pegava duas garrafas de cerveja na geladeira, que Marcel de pronto aceitou e abriu, tomando direto do gargalo.

- Preferi ir direto ao ponto. Não vou ter os ataques de carência que teve quando aquele cego ficou com seu emprego, não preciso disso, Gambelli. – recuou, temeu pela reação do amigo com a lembrança do fato, então morto entre eles.

- Ok, então. O que houve? – disse, sem dar bola para a provocação.

- Nada de grave, só vim vomitar minha filosofia barata nas suas canecas de chope. – Álvaro virou para ele um olhar engraçado, de quem não engole a conversa. – Não vem com essa cara pra cima de mim, Gambelli, é sério! Não foi nada grave, mas foi importante ao ponto de me fazer enxergar as coisas da maneira mais certa.

- Não tomou nem metade da garrafa e já vem com esse papo de bêbado?

- Não é papo de bêbado! Algo que me aconteceu, abriu meus olhos pra uma verdade que de todos fica escondida! – Marcel virou tudo em uma golada.

- Ok, e que verdade é essa? – Álvaro finalmente abria sua garrafa.

- A de que o amor odeia a nós todos! – abriu os olhos, como se esperasse pelo amigo exaltando sua genialidade, não obteve nenhum sucesso.

- Quer dizer, supondo que o amor é uma entidade física?

Houve um silencio constrangedor por um curto período, Marcel fazia o som de estalos com a boca enquanto tentava formar o raciocínio para dar a resposta mais satisfatória possível. Nisso, Gambelli terminou sua garrafa, e foi até a cozinha, nos fundos do bar, buscar algo para comer.

Voltou com um salgadinho gorduroso, que pareceu agradar aos olhos pensativos e inquisitivos de Marcel, que decidiu pular sobre o balcão, puxar a porta da geladeira com as pontas dos dedos, e com eles, apanhar outra garrafa, quase a derrubando.

- Bêbado.

- Gordo.

Álvaro riu, virou-se e pegou outra garrafa para si. Abriu quando o amigo terminou de beber a dele.

- Onde eu estava? Ah, sim! O amor é uma entidade física, quando parasita nas pessoas, meu amigo. Porque é isso o que ele faz, parasitar. Toma controle dos mais fracos e os faz rastejar, perder a dignidade, o amor próprio, a liberdade. Os prende às coisas que são menos importantes do que eles mesmos. Todo o resto. – esperou Álvaro terminar. – Descobri isso sendo tomado por esse veneno, ser diminuído, ludibriado, esquecido, chutado. E isso tudo aconteceu enquanto as coisas pareciam bem, já que aquilo que te infligem só é revelado no momento em que o parasita não tem mais o que sugar.

- Você sabe que isso não quer dizer coisa com coisa, não sabe? – o som das buzinas na avenida movimentada ao lado do bar se fizeram presentes.

- E mesmo assim, estou certo de que já teve essa exata sensação. A de que foi usado, do fracasso, de que não foi suficiente, ou nunca vai ser. O momento emo pelo qual todo barbado passa para se enxergar humano, falho. Estúpido. – Álvaro titubeou ao responder, o que fez Marcel continuar o monólogo. – Viu só? Todo mundo passou por isso, ou vai passar em algum momento. Mas sabe o que te torna ainda mais digno de pena? – a resposta foi requisitada com silencio. – No fim, quer aquilo de volta, exatamente como era. Quer de novo, de novo e de novo. Mas o mais triste, é quando quer novamente com tanta precisão, que deseja até a mesma pessoa a quem não foi satisfatório, com quem falhou, pura necessidade mesquinha já que não aguenta ficar um minuto sequer sem falar com ela, sobre qualquer assunto. Sente falta da voz, do sorriso. Isso tudo dói agudo, mas precisa pensar que vai ter tudo de novo porque lhe faz bem.

Ele levantou-se do banco, foi até uma janela do bar que ainda não havia sido coberta pela camada de aço e observou a rua, com os carros parados, pedindo por movimento e passagem.

- Seu silêncio mostra que se sente exatamente igual. Agora também se pergunta como sei de tudo isso. – vira-se para o amigo. – Deveria se perguntar a quanto tempo não nos reunimos aqui.

- Três anos.

- Isso mesmo! Três anos! E qual foi a última vez que nos reunimos? – aproximou-se do balcão novamente.

- No hospital. Antes de… – voz embargada. Silencio.

- Antes de eu morrer, Gambelli. Antes de eu dizer "até mais" para toda essa rotina de merda. – foi para trás do balcão e apoiou-se no braço do amigo. – Mas ainda assim, quando alguém pisa em você, precisa de mim pra pensar no que acontece por dentro. Quer-me pra colocar suas ideias no lugar. Pra fazer aquele discurso do começo lembrando quão patético é, só que falando por mim. Mas não se preocupe, meu amigo, todos precisam de algo assim, você só exteriorizou um pouco mais, já que precisava acalmar essa dor que nunca sentiu e não sabe como tratar. Tudo o que tenho para você é um conselho: Para de se lamentar e volte a ser aquele Álvaro com o qual cresci.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Caverna

Sol nascido, Luz forte nos olhos fechado impedindo um sono confortável. Incomodo respondido com um espreguiço exagerado, intentando espantar a lentidão comum às manhãs.

Cumpriu sua rotina matinal, terminando-a com um desjejum insosso, até meio rançoso. Mas já estava habituado, vinha comendo a mesma coisa havia alguns dias. A única coisa que mudara era a Luz acordando-o. Tudo o que havia feito de diferente na noite anterior tinha sido dormir em um lugar diferente do comum, o primeiro onde deitara, tamanho seu cansaço. E esse pequeno detalhe, que sempre esteve lá, mas nunca tinha sido percebido, fez tudo parecer diferente. A comida continuava sendo ruim, mas ele a ingeria com satisfação, pois havia acordado com um bom sinal, cheio de beleza, que o Homem ainda não havia notado, mas estava fora de seu alcance, já que tudo o que podia era sentir seu calor e ofuscar-se com seu brilho, que sem cerimônias rasgou a escuridão que antes tomava o lugar e blindava seu habitante, mas tornava a vida dele apenas e até então, tão somente dele.

O Homem queria passar o resto da vida apenas observando a Luz se estabelecer, bruxulear quando bloqueada por alguém de passagem, viver seu ciclo.

No entanto, seu dia mal havia começado, ele estava ciente disso, mas tudo o que conseguia era fazer o que sempre lhe foi devido em todos os anos antes, porém, sem nunca tirar os olhos da Luz, que mais e mais invadia o espaço ao qual até então só pertencia à escuridão. E aquela rotina simplória o hipnotizava.

Foi à tarde que o brilho mais se fez presente, como se ao lugar sempre pertencesse, tomou posse de tudo aquilo que o homem chamava de lar, que via como si.

Isso tornou sua segunda refeição tão saborosa quanto a ambrosia deveria ser. Os momentos passavam como uma eternidade, a Luz queria tocá-lo, e ele a encarava como sua, apesar de até então, não tê-la de fato.

Em seu apogeu, a Luz o completou e preencheu. Estava por toda parte, ao mesmo tempo em que sempre podia ser vista ao lado do Homem. O alivio agora era parte dessa casa, tudo ali a refletia da mesma forma que tudo ali parecia nunca mais querer deixá-la.

Graças a isso, a tarde tornou-se ainda mais lenta e saborosa, onde cada minuto podia ser aproveitado e apreciado. E em cada um destes momentos, ele podia sentir que esta luz tenra e acalentadora lhe pertencia. Mas já chegava o fim da tarde, ela começava a desvanecer, falhar, ameaçar deixá-lo, sem que o Homem sequer percebesse.

Ao anoitecer, era impossível não notar a Luz afastando-se de maneira ameaçadora, querendo se despedir sem saber como, deixando-o com um alarde sonoro, mas que podia ser apenas ouvido por ele. A mesma ufania com a qual se fez presente.

Com isso, a noite foi tornando-se fria, desolada. Tudo parecia igual a maneira que sempre havia sido até então.

O Homem não queria isso, ofertou tudo o que acreditava ser do desejo da Luz, que só respondia afastando-se ainda mais. Ele então correu para alcançá-la, fazer o possível para não perdê-la, a trazer de volta.

Porém não houve sucesso, ela continuou seu caminho para cada vez mais longe do Homem em uma lentidão agonizante que entalou na garganta e o impediu de falar, se manifestar, pedir para que ela voltasse, dizer o quanto a quer de volta. Mas tudo foi em vão, ela estava cada vez mais longe, e tudo ao que ele podia se apegar agora eram os planos que traçara desde o momento em que primeiro viu a Luz. E isso, no fim, foi tudo o que lhe restou. Já que os planos tornaram-se lembranças, as quais ele não iria querer resgatar. Ele queria lamentar, mas não sabia como quando notou que tudo o que restara da Luz era sua melancolia encarnada, a Lua. Ainda linda como sempre foi, mas muito além de qualquer alcance.

E mais uma vez a escuridão tomou conta dele, vazia, sem propósito, amarga e eterna. Esse era seu jantar.

Tudo o que lhe restou foi conviver com o desejo e a angústia. Engolir isso tudo enquanto espera ela voltar.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

-EMPTY-

...          Qdo eu senti que meu coração ia pular boca afora, falei pra ele que eu queria morrer... Ele disse que se eu tentasse algo, me mataria (que ironia!)... e que me daria o abraço que eu tanto precisava naquele momento. Não pude mais pensar... Peguei o que me pertencia de fato, perturbei o sono de outros com as vãs palavras "vou dormir fora" e peguei o último metrô.
Alcancei meu destino com um ar vago e poético. Era tarde demais até para o pessoal trabalhador notar minha singular presença. Terminar aquela merda e voltar pracasa... Certamente mais importante que uma transeunte! E logo ele veio ao meu encontro. Preocupado. Aquele abraço me confortou mais que mil palavras e meu coração, tímido e insensato, voltava a dar sinais de existir. Foram segundos, na verdade... Pra mim pareciam horas que eu desejava. O peito pareceu parar de doer tanto... gradualmente. Saímos. Subimos. A princípio, o espaço que tanto me incomodou no passado, parecia me invadir... como uma reação avessa ao proporcional. O tilintar que eu podia ouvir ao fundo, o cheiro marcante de algum incenso, talvez. Não pensei muita coisa... Nem vi! O baque surdo na parede, as mãos trêmulas, sufocos, gemidos e sussurros invadiram a minha mente... Não se sabe por quanto tempo mais estendeu-se aquela sensação empolgante que, com um quê de perigo, encorajava a pedir mais. O que importava era o momento em si. E a insegurança em abrir a boca para saber se estávamos sendo ouvidos. A sensação de um efeito reverso tomava conta de mim e logo o que tomou várias horas se viu passar num segundo. Não sabia de onde surgiu aquilo... A vontade de toque humano, o cheiro, o suor... O calor não negava que deveríamos estar encharcados e num ato quase egoísta, eu o abracei... Como se fosse a última pessoa a me ver em vida. Ele me deu um beijo longo, desejoso, um belo sorriso e se retirou.
Ali dormi. Não teria mais para onde ir àquela hora. Tão tarde. Sozinha no quarto... Depois de outra ligação inesperada de madrugada e um e-mail respondido num laptop desconhecido.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Rompendo as barreiras.

Então eram um turbilhão de membros, um amálgama de sexos. Misto de pele e desejos , sonhos e fúria. Nenhum dos dois conseguia se lembrar exatamente de como havia começado, mas nada mais poderia pará-los. Eram lábios, língua, dentes, se digladiando para arrancar pedaços voluptuosos do outro, unhas se cravam, sangue escorre, batidas, hematomas, dor, arfados, gemidos e delírio. Puro delírio...
As roupas eram descartadas como se nada fosse mais natural, até porque estavam lá apenas simbolicamente, a união já estava tão consumada em suas mentes que o ato já estava ocorrendo, através de tecido, espaço, e qualquer outro obstáculo.
As respirações se tornam mais ritmadas, o clímax se aproxima, os corações batem com a fúria de mil baterias, os gritos se tornam urros,
Momentos simbólicos de êxtase vem e vão, e a competição sem vencedores segue num ritmo crescente, quando o ápice-mor finalmente ocorre. Ao cairem ao chão , deslizando pela parede , trocam algumas palavras:

"Eu... te... amo"

"Meu, calaboca , amor não tem nada a ver com isso!"

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Reflexões...

Depois de menos de cinco minutos, desabei sobre aquela cadeira envergonhada e desconfortável. Apesar das sensações, estava nas nuvens... Apesar das nuvens, sentia-me confusa como nunca. Só queria provar de novo... ou mais... Como algo que erguesse meus pés do chão, que me desse asas, colorisse o mundo... algo macio como o veludo de um pêssego! Seria realmente tão bom ou perdi-me naquela idéia?
Foi rápido, lento, passou num segundo, não sei, talvez menos... e não acreditei que o ato fosse meu!
Um gole lento da minha própria saliva  encarava o vazio da minha mente e o barulho de engrenagens enferrujadas raspando umas nas outras.
Dois passos pra trás. Não lembro quando me levantei, mas... a sanidade me engolia com uma ferocidade estarrecedora. Em seguida, o torpor enlaçando os velhos sonhos nunca sonhados.
Uma doce droga... Droga porque apesar da incerteza de vício, já tinha alterado a percepção. E meu corpo, máquina flutuante de personalidade ímpar, a todo vapor, na medida do tímido impulso, pedia mais... mais...