FeeD

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Caverna

Sol nascido, Luz forte nos olhos fechado impedindo um sono confortável. Incomodo respondido com um espreguiço exagerado, intentando espantar a lentidão comum às manhãs.

Cumpriu sua rotina matinal, terminando-a com um desjejum insosso, até meio rançoso. Mas já estava habituado, vinha comendo a mesma coisa havia alguns dias. A única coisa que mudara era a Luz acordando-o. Tudo o que havia feito de diferente na noite anterior tinha sido dormir em um lugar diferente do comum, o primeiro onde deitara, tamanho seu cansaço. E esse pequeno detalhe, que sempre esteve lá, mas nunca tinha sido percebido, fez tudo parecer diferente. A comida continuava sendo ruim, mas ele a ingeria com satisfação, pois havia acordado com um bom sinal, cheio de beleza, que o Homem ainda não havia notado, mas estava fora de seu alcance, já que tudo o que podia era sentir seu calor e ofuscar-se com seu brilho, que sem cerimônias rasgou a escuridão que antes tomava o lugar e blindava seu habitante, mas tornava a vida dele apenas e até então, tão somente dele.

O Homem queria passar o resto da vida apenas observando a Luz se estabelecer, bruxulear quando bloqueada por alguém de passagem, viver seu ciclo.

No entanto, seu dia mal havia começado, ele estava ciente disso, mas tudo o que conseguia era fazer o que sempre lhe foi devido em todos os anos antes, porém, sem nunca tirar os olhos da Luz, que mais e mais invadia o espaço ao qual até então só pertencia à escuridão. E aquela rotina simplória o hipnotizava.

Foi à tarde que o brilho mais se fez presente, como se ao lugar sempre pertencesse, tomou posse de tudo aquilo que o homem chamava de lar, que via como si.

Isso tornou sua segunda refeição tão saborosa quanto a ambrosia deveria ser. Os momentos passavam como uma eternidade, a Luz queria tocá-lo, e ele a encarava como sua, apesar de até então, não tê-la de fato.

Em seu apogeu, a Luz o completou e preencheu. Estava por toda parte, ao mesmo tempo em que sempre podia ser vista ao lado do Homem. O alivio agora era parte dessa casa, tudo ali a refletia da mesma forma que tudo ali parecia nunca mais querer deixá-la.

Graças a isso, a tarde tornou-se ainda mais lenta e saborosa, onde cada minuto podia ser aproveitado e apreciado. E em cada um destes momentos, ele podia sentir que esta luz tenra e acalentadora lhe pertencia. Mas já chegava o fim da tarde, ela começava a desvanecer, falhar, ameaçar deixá-lo, sem que o Homem sequer percebesse.

Ao anoitecer, era impossível não notar a Luz afastando-se de maneira ameaçadora, querendo se despedir sem saber como, deixando-o com um alarde sonoro, mas que podia ser apenas ouvido por ele. A mesma ufania com a qual se fez presente.

Com isso, a noite foi tornando-se fria, desolada. Tudo parecia igual a maneira que sempre havia sido até então.

O Homem não queria isso, ofertou tudo o que acreditava ser do desejo da Luz, que só respondia afastando-se ainda mais. Ele então correu para alcançá-la, fazer o possível para não perdê-la, a trazer de volta.

Porém não houve sucesso, ela continuou seu caminho para cada vez mais longe do Homem em uma lentidão agonizante que entalou na garganta e o impediu de falar, se manifestar, pedir para que ela voltasse, dizer o quanto a quer de volta. Mas tudo foi em vão, ela estava cada vez mais longe, e tudo ao que ele podia se apegar agora eram os planos que traçara desde o momento em que primeiro viu a Luz. E isso, no fim, foi tudo o que lhe restou. Já que os planos tornaram-se lembranças, as quais ele não iria querer resgatar. Ele queria lamentar, mas não sabia como quando notou que tudo o que restara da Luz era sua melancolia encarnada, a Lua. Ainda linda como sempre foi, mas muito além de qualquer alcance.

E mais uma vez a escuridão tomou conta dele, vazia, sem propósito, amarga e eterna. Esse era seu jantar.

Tudo o que lhe restou foi conviver com o desejo e a angústia. Engolir isso tudo enquanto espera ela voltar.

Um comentário:

Mrs. Doll disse...

deprimente, desesperador e... como sempre, genial! :)

Você é demais! Você é insuperável, meu amigo! ^^