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sábado, 29 de maio de 2010

Reminiscência

- Que fique clara uma coisa nessa conversa: sou um fracasso, não precisa exaltar, ou mesmo me lembrar disso. Minha consciência o faz por conta própria, com um êxito digno de memória, se não o fosse de pena. – foram as primeiras palavras de Marcel, ao encontrar-se com Álvaro, amigo de infância, pelo qual se habituou a tratar como Gambelli, seu sobrenome. Essa foi uma daquelas chamadas emergenciais que ambos faziam em momentos que só o outro seria capaz de ajudá-lo.

- Há quanto tempo fazemos isso? – ignorou o discurso introdutório, sabendo que era isso o que seu amigo esperava.

- Sei lá, desde os doze? – Marcel tentava puxar a informação da memória, se distraiu com uma mulher de vestido que passava pela rua, até pescar a resposta. – Sim, desde quando foi chutado pela sua professora de Educação Física e começamos a nos reunir no jardim do meu prédio.

Eles não mais se encontravam lá, Marcel havia se mudado aos vinte e três para morar sozinho, em uma kitinete no centro. Agora usavam o bar que Álvaro herdara do pai. Ele até fechava-o mais cedo para que pudessem ficar a vontade.

- Agora pode dizer o que me obrigou a fechar o bar às oito da noite em uma sexta-feira e me fez ouvir você choramingando sem nem dar um oi ou dizer que a irmã continua gostosa? – Álvaro disse entre risadas enquanto ia para trás do balcão e pegava duas garrafas de cerveja na geladeira, que Marcel de pronto aceitou e abriu, tomando direto do gargalo.

- Preferi ir direto ao ponto. Não vou ter os ataques de carência que teve quando aquele cego ficou com seu emprego, não preciso disso, Gambelli. – recuou, temeu pela reação do amigo com a lembrança do fato, então morto entre eles.

- Ok, então. O que houve? – disse, sem dar bola para a provocação.

- Nada de grave, só vim vomitar minha filosofia barata nas suas canecas de chope. – Álvaro virou para ele um olhar engraçado, de quem não engole a conversa. – Não vem com essa cara pra cima de mim, Gambelli, é sério! Não foi nada grave, mas foi importante ao ponto de me fazer enxergar as coisas da maneira mais certa.

- Não tomou nem metade da garrafa e já vem com esse papo de bêbado?

- Não é papo de bêbado! Algo que me aconteceu, abriu meus olhos pra uma verdade que de todos fica escondida! – Marcel virou tudo em uma golada.

- Ok, e que verdade é essa? – Álvaro finalmente abria sua garrafa.

- A de que o amor odeia a nós todos! – abriu os olhos, como se esperasse pelo amigo exaltando sua genialidade, não obteve nenhum sucesso.

- Quer dizer, supondo que o amor é uma entidade física?

Houve um silencio constrangedor por um curto período, Marcel fazia o som de estalos com a boca enquanto tentava formar o raciocínio para dar a resposta mais satisfatória possível. Nisso, Gambelli terminou sua garrafa, e foi até a cozinha, nos fundos do bar, buscar algo para comer.

Voltou com um salgadinho gorduroso, que pareceu agradar aos olhos pensativos e inquisitivos de Marcel, que decidiu pular sobre o balcão, puxar a porta da geladeira com as pontas dos dedos, e com eles, apanhar outra garrafa, quase a derrubando.

- Bêbado.

- Gordo.

Álvaro riu, virou-se e pegou outra garrafa para si. Abriu quando o amigo terminou de beber a dele.

- Onde eu estava? Ah, sim! O amor é uma entidade física, quando parasita nas pessoas, meu amigo. Porque é isso o que ele faz, parasitar. Toma controle dos mais fracos e os faz rastejar, perder a dignidade, o amor próprio, a liberdade. Os prende às coisas que são menos importantes do que eles mesmos. Todo o resto. – esperou Álvaro terminar. – Descobri isso sendo tomado por esse veneno, ser diminuído, ludibriado, esquecido, chutado. E isso tudo aconteceu enquanto as coisas pareciam bem, já que aquilo que te infligem só é revelado no momento em que o parasita não tem mais o que sugar.

- Você sabe que isso não quer dizer coisa com coisa, não sabe? – o som das buzinas na avenida movimentada ao lado do bar se fizeram presentes.

- E mesmo assim, estou certo de que já teve essa exata sensação. A de que foi usado, do fracasso, de que não foi suficiente, ou nunca vai ser. O momento emo pelo qual todo barbado passa para se enxergar humano, falho. Estúpido. – Álvaro titubeou ao responder, o que fez Marcel continuar o monólogo. – Viu só? Todo mundo passou por isso, ou vai passar em algum momento. Mas sabe o que te torna ainda mais digno de pena? – a resposta foi requisitada com silencio. – No fim, quer aquilo de volta, exatamente como era. Quer de novo, de novo e de novo. Mas o mais triste, é quando quer novamente com tanta precisão, que deseja até a mesma pessoa a quem não foi satisfatório, com quem falhou, pura necessidade mesquinha já que não aguenta ficar um minuto sequer sem falar com ela, sobre qualquer assunto. Sente falta da voz, do sorriso. Isso tudo dói agudo, mas precisa pensar que vai ter tudo de novo porque lhe faz bem.

Ele levantou-se do banco, foi até uma janela do bar que ainda não havia sido coberta pela camada de aço e observou a rua, com os carros parados, pedindo por movimento e passagem.

- Seu silêncio mostra que se sente exatamente igual. Agora também se pergunta como sei de tudo isso. – vira-se para o amigo. – Deveria se perguntar a quanto tempo não nos reunimos aqui.

- Três anos.

- Isso mesmo! Três anos! E qual foi a última vez que nos reunimos? – aproximou-se do balcão novamente.

- No hospital. Antes de… – voz embargada. Silencio.

- Antes de eu morrer, Gambelli. Antes de eu dizer "até mais" para toda essa rotina de merda. – foi para trás do balcão e apoiou-se no braço do amigo. – Mas ainda assim, quando alguém pisa em você, precisa de mim pra pensar no que acontece por dentro. Quer-me pra colocar suas ideias no lugar. Pra fazer aquele discurso do começo lembrando quão patético é, só que falando por mim. Mas não se preocupe, meu amigo, todos precisam de algo assim, você só exteriorizou um pouco mais, já que precisava acalmar essa dor que nunca sentiu e não sabe como tratar. Tudo o que tenho para você é um conselho: Para de se lamentar e volte a ser aquele Álvaro com o qual cresci.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Caverna

Sol nascido, Luz forte nos olhos fechado impedindo um sono confortável. Incomodo respondido com um espreguiço exagerado, intentando espantar a lentidão comum às manhãs.

Cumpriu sua rotina matinal, terminando-a com um desjejum insosso, até meio rançoso. Mas já estava habituado, vinha comendo a mesma coisa havia alguns dias. A única coisa que mudara era a Luz acordando-o. Tudo o que havia feito de diferente na noite anterior tinha sido dormir em um lugar diferente do comum, o primeiro onde deitara, tamanho seu cansaço. E esse pequeno detalhe, que sempre esteve lá, mas nunca tinha sido percebido, fez tudo parecer diferente. A comida continuava sendo ruim, mas ele a ingeria com satisfação, pois havia acordado com um bom sinal, cheio de beleza, que o Homem ainda não havia notado, mas estava fora de seu alcance, já que tudo o que podia era sentir seu calor e ofuscar-se com seu brilho, que sem cerimônias rasgou a escuridão que antes tomava o lugar e blindava seu habitante, mas tornava a vida dele apenas e até então, tão somente dele.

O Homem queria passar o resto da vida apenas observando a Luz se estabelecer, bruxulear quando bloqueada por alguém de passagem, viver seu ciclo.

No entanto, seu dia mal havia começado, ele estava ciente disso, mas tudo o que conseguia era fazer o que sempre lhe foi devido em todos os anos antes, porém, sem nunca tirar os olhos da Luz, que mais e mais invadia o espaço ao qual até então só pertencia à escuridão. E aquela rotina simplória o hipnotizava.

Foi à tarde que o brilho mais se fez presente, como se ao lugar sempre pertencesse, tomou posse de tudo aquilo que o homem chamava de lar, que via como si.

Isso tornou sua segunda refeição tão saborosa quanto a ambrosia deveria ser. Os momentos passavam como uma eternidade, a Luz queria tocá-lo, e ele a encarava como sua, apesar de até então, não tê-la de fato.

Em seu apogeu, a Luz o completou e preencheu. Estava por toda parte, ao mesmo tempo em que sempre podia ser vista ao lado do Homem. O alivio agora era parte dessa casa, tudo ali a refletia da mesma forma que tudo ali parecia nunca mais querer deixá-la.

Graças a isso, a tarde tornou-se ainda mais lenta e saborosa, onde cada minuto podia ser aproveitado e apreciado. E em cada um destes momentos, ele podia sentir que esta luz tenra e acalentadora lhe pertencia. Mas já chegava o fim da tarde, ela começava a desvanecer, falhar, ameaçar deixá-lo, sem que o Homem sequer percebesse.

Ao anoitecer, era impossível não notar a Luz afastando-se de maneira ameaçadora, querendo se despedir sem saber como, deixando-o com um alarde sonoro, mas que podia ser apenas ouvido por ele. A mesma ufania com a qual se fez presente.

Com isso, a noite foi tornando-se fria, desolada. Tudo parecia igual a maneira que sempre havia sido até então.

O Homem não queria isso, ofertou tudo o que acreditava ser do desejo da Luz, que só respondia afastando-se ainda mais. Ele então correu para alcançá-la, fazer o possível para não perdê-la, a trazer de volta.

Porém não houve sucesso, ela continuou seu caminho para cada vez mais longe do Homem em uma lentidão agonizante que entalou na garganta e o impediu de falar, se manifestar, pedir para que ela voltasse, dizer o quanto a quer de volta. Mas tudo foi em vão, ela estava cada vez mais longe, e tudo ao que ele podia se apegar agora eram os planos que traçara desde o momento em que primeiro viu a Luz. E isso, no fim, foi tudo o que lhe restou. Já que os planos tornaram-se lembranças, as quais ele não iria querer resgatar. Ele queria lamentar, mas não sabia como quando notou que tudo o que restara da Luz era sua melancolia encarnada, a Lua. Ainda linda como sempre foi, mas muito além de qualquer alcance.

E mais uma vez a escuridão tomou conta dele, vazia, sem propósito, amarga e eterna. Esse era seu jantar.

Tudo o que lhe restou foi conviver com o desejo e a angústia. Engolir isso tudo enquanto espera ela voltar.